No livro de São Mateus, Novo Testamento, está escrito "...é mais  fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no  Reino dos Céus.." o problema é que o tradutor do texto  interpretou a palavra "kamelos" como camelo, quando na verdade, em  grego, "kamelos" são as cordas grossas com que se amarram os barcos.

Há  tambem  uma "lenda"  que  diz  o  seguinte:  a  palavra  realmente se  referente  a  um  camelo, enquanto "fundo de uma agulha", refere-se a saída de um mangueiro, curral ou coisa do genero. Enfim, trata-se de uma passagem onde somente seres humanos podiam trafegar, pois a tal passagem é em forma de labirinto e nem camelo, nem vaca, nem cavalo passavam pelo "fundo da agulha".

Qual das duas parece mais coerente?
Claude Lévi-Strauss, que no ano passado completou 100 anos de vida

"Coisa estranha é a escrita. Tudo indicaria que sua aparição não poderia deixar de determinar mudanças profundas nas condições de vida da humanidade; e que essas transformações deveriam ser, acima de tudo, de natureza intelectual. Depois de eliminarmos todos os critérios propostos para distinguir a barbárie da civilização, gostaríamos de reter pelo menos este: povos com ou sem escrita, uns capazes de acumular as aquisições antigas e progredindo cada vez mais rápido rumo ao objetivo que se fixaram, ao passo que os outros, impotentes para reter o passado além dessa franja que a memória individual é suficiente para fixar, permaneceriam prisioneiros de uma história flutuante à qual faltariam sempre uma origem e a consciência duradoura de um projeto.


Contudo, nada do que sabemos sobre a escrita e seu papel na evolução justifica tal idéia. Uma das fases mais criativas da história da humanidade situa-se no início do Neolítico, responsável pela agricultura, pela domesticação dos animais e por outras artes. Para chegar a isso, foi preciso que, durante milênios, pequenas coletividades humanas observassem, experimentassem e trasmitissem o fruto de suas reflexões. Essa imensa empreitada desenrolou-se com um rigor e uma continuidade atestadas por seu sucesso, enquanto a escrita ainda era desconhecida.


Se quisermos estabelecer a correlação entre o aparecimento da escrita e certos traços característicos da civilização, convém procurar em outro rumo. O único fenômeno que a acompanhou fielmente foi a formação das cidades e dos impérios, isto é, a integração num sistema político de um número considerável de indivíduos e sua hierarquização em castas e em classes. Em todo caso, esta é a evolução típica à qual assistimos, desde o Egito até a China, no momento em que a escrita faz sua estréia: ela parece favorecer a exploração dos homens, antes de iluminá-los. Há que se admitir que a função primária da comunicação escrita foi facilitar a servidão. O emprego da escrita com fins desinteressados, visando extrair-lhes satisfações intelectuais e estéticas, é um resultado secundário, se é que não se resume, no mais das vezes, a um meio para reforçar, justificar ou dissimular o outro."

Trecho do livro Tristes Trópicos, publicado em 1955
Tradução de Rosa Freire d'Aguiar